Os desafios do confinamento para a comunicação


Sempre gostei de rua. Lembro que, nos tempos de escola, nas férias, eu saía de casa no início da manhã, por volta das 7 horas, e só reaparecia no final do dia. Não tomava nem café. Matava minha fome com mangas ou o que achasse pelo caminho. É bem verdade que, algumas vezes, retornava mais cedo, mas era porque minha mãe me buscava. E ela, com sua gentileza de quem nunca se estressava com minhas escapadas, me trazia com um cinto ou uma chinela – tinha também umas varinhas de pés de goiaba, mas, essas, não gosto de recordar.

Ainda hoje, mais de 30 anos depois, continuo tendo o mesmo prazer de ir pra rua, mas com outros objetivos. Não dá mais para viver de mangas – e os pés estão mais escassos na minha região – e tampouco correr atrás de raias (pipas), subir em cima de carrinhos de rolimã ou brincar de bete e golzinho. Os tempos são outros e os perigos também. Gosto de ir ao supermercado, shopping, na casa de um amigo, conhecer uma cidade ou bairro que ainda não tive o prazer de pisar. Resumindo, odeio ficar muito tempo dentro de casa, mesmo tendo paixão por videogame!

Mas aí veio o coronavírus, que surgiu na China e foi se espalhando devagarinho pelo planeta. Com ele, milhões de doentes, milhares de mortos e o confinamento. Se eu nunca gostei de ficar em casa para divertir, descansar ou passar o tempo, imagina trabalhar! Trabalhar, pra mim, foi o maior desafio desta quarentena. Tive de mudar muita coisa dentro de mim, especialmente as rotinas. Afinal de contas, tenho clientes para atender, um emprego para manter e preciso de renda para pagar minhas contas.

Para facilitar minha adaptação, trouxe o computador da empresa pra minha casa. Não queria utilizar notebook. Tenho a sensação de que, quando vejo o teclado, o monitor e o HD, tudo separadinho, estou no escritório. Montei meu “home office” no quarto de minha filha, para que eu tivesse a sensação de ir ao trabalho – mesmo estando a cinco passos do meu quarto. Tento não dormir tarde e acordar pontualmente para começar a trabalhar.

Confesso que ainda não estou plenamente adaptado. Distraio-me muito fácil, mesmo sozinho em casa. Ainda sinto muita falta do contato com as pessoas, especialmente os colegas de trabalho. Sinto falta de trocar ideias sobre determinados assuntos, como política, economia e futebol. Sinto falta, literalmente, de me comunicar diretamente com as pessoas, sem a utilização de meios eletrônicos.

Mas é preciso se adaptar. E essa adaptação não é apenas minha, ou sua, que também deve estar confinado. É um momento de ressignificação pra todos, ou seja, o futuro será diferente. As pessoas terão um novo olhar sobre o mundo no pós-coronavírus. E quem não se adaptar, ficará para trás, com toda certeza. Isso também vale para marcas e empresas. O digital vai imperar e mudar, ainda mais radicalmente, a maneira com que fazemos negócios e nos comunicamos.

Por isso, a cada dia que eu me esforço para ser mais digital e me comunicar com mais clareza por meios eletrônicos, vejo que esse empenho precisa ser de todos, especialmente no mundo empresarial. Se eu tenho um propósito de vida e o busco a cada dia, as empresas também precisam ter. Serão esses propósitos que vão mantê-las vivas. E esses propósitos precisarão ser comunicados à sociedade com clareza e transparência. É aí que entra o papel do jornalista, de apoiar o renascimento de marcas e empresas.

Quando começou a pandemia e o confinamento, cheguei a acreditar que estava tudo acabado para o jornalismo. Mas, no entanto, estamos renascendo mais fortes. Neste novo mundo, o papel do jornalismo também está sendo ressignificado, e pra melhor. Seremos ainda mais indispensáveis. Se não fosse pela comunicação, com certeza, a epidemia seria muito pior. E, quando tudo acabar – espero que seja em breve –, um novo mundo de oportunidades nascerá. Quem estiver preparado, sairá na frente. Como dizia meu saudoso avô João, “as pessoas muda” (demorei anos para entender que o “muda” não era de silêncio, e sim de mudança). E as empresas também! Por Warlem Sabino, jornalista e assessor de comunicação da Oficina de Comunicação

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